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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cinema nacional: crescimento e perspectivas

Em 2003, o cinema brasileiro atingiu a espantosa marca de mais de 20% da fatia do mercado nacional, segundo especialistas na área, um recorde, tendo em vista os problemas que a economia enfrentou nos últimos anos aliados às medidas governamentais que, em 1990, ainda na gestão do ex-presidente Fernando Collor de Mello, praticamente extinguiram as verbas para a produção cinematográfica no Brasil.
Números assim, tão significativos, foram observados apenas na década de 70, quando o cinema brasileiro atingiu a marca de 80% do mercado nacional, principalmente porque a "pornochanchada" estava em alta e, em, além disso, havia a intenção de alguns cineastas em produzir filmes "engajados", com qualidade e compromisso. ? importante lembrar também que, naquela época, o governo impunha regras de exibição que, bem ou mal, tornava mais fácil o acesso da população às produções nacionais, o que, na visão de especialistas, continua a ser um dos maiores entraves para a produção cinematográfica brasileira.
Para muitos, essa retomada, principalmente em virtude da  lei do audiovisual,  outorgada pelo ex-presidente Itamar Franco (1991-1992), e com a criação da  Ancine (Agência Nacional de Cinema) no governo de Fernando Henrique Cardoso, é uma vitória, sinal de que o cinema brasileiro está reaquecendo. Entretanto, para que ele continue evoluindo é preciso rever os erros do passado e investir em políticas mais sólidas, que viabilizem novas produções e facilitem a exibição dos filmes nacionais.
"A lei do audiovisual sem dúvida foi responsável por uma melhoria técnica nas produções. Hoje, por exemplo, os filmes têm uma qualidade sonora muito superior à que tínhamos na década de 70. Porém, é necessário criar novas medidas que facilitem a exibição das produções nacionais. As grandes cadeias do cinema brasileiro são dominadas pelo cinema norte-americano. Isso não é só de agora, esses problemas sempre existiram", declara o cineasta e professor de comunicação visual do curso de relações públicas da  Fundação Cásper Líbero, Bruno Hingst.
Na visão de Hingst, outro fator que poderia ser melhor explorado para a promoção do cinema brasileiro é a questão da divulgação dos filmes. Segundo ele, a maioria das produções nacionais não chega ao conhecimento do público porque não conta com forte publicidade como as produções patrocinadas pela Globo Filmes, por exemplo. "A maioria das pessoas não conhece os filmes que acabaram de ser lançados porque eles entram em cartaz sem divulgação, exceto, é claro, as produções que contam com a parceria da Globo Filmes e são divulgadas na Rede Globo de Televisão", diz.
Para Hingst, medidas que promovam a exibição e divulgação dos filmes nacionais são vitais para o crescimento do cinema brasileiro, além de novas leis de incentivo para o financiamento de produções que não tenham viabilidade comercial, mas que sejam de suma importância para promover a pesquisa e o resgate da história do país. "Existem projetos que são facilmente absorvidos pelo mercado, outros que não têm viabilidade comercial, mas que possuem grande importância histórica e que devem ser estimulados. A política quanto a isso devia ser muito mais ampla, a médio e a longo prazo", ressalta.
Receptividade do público
Cada vez mais o público tem ido aos cinemas para conferir as produções nacionais. Uma prova disso é que apenas no ano passado, no Brasil, das 22 maiores bilheterias que receberam mais de 22 milhões de espectadores, oito são nacionais. Para especialistas, toda essa receptividade está intimamente ligada à diversificação dos gêneros das produções. "Estamos vivendo mais um ‘boom’ do cinema nacional, mas desta vez de uma forma diferente. Estamos diversificando a produção e isso é muito importante, afinal, é um dos motivos que leva cada vez mais o público brasileiro ao cinema", destaca o cineasta e coordenador do Curso de Cinema da Faculdade de Comunicação da  FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado), José Gozze.
A jornalista, crítica de cinema e diretora do web site  Cineweb, Neusa Barbosa, reforça a questão da diversificação nos roteiros como principal combustível para levar os espectadores às salas de exibição de filmes nacionais. Segundo ela, essa diversificação nunca foi tão presente, nem mesmo na década de 70, quando as produções brasileiras tinham recorde de público.
"Em 1970, com a ditadura militar, tínhamos o cinema social, com engajamento político e a "pornochanchada", que era barata, comercial, praticamente se auto-sustentava porque trazia o povo em massa para as salas de exibição. Hoje, não temos essa dualidade, temos roteiros variados, para todo o tipo de público. Contudo, eu acredito que o cinema para crianças e adolescentes ainda é pouco explorado. Há uma carência de roteiros inteligentesï voltados para esse tipo de público", destaca Neusa.
Brasil: Pólo de cinema da América Latina?
Com todo esse avanço, especialistas afirmam que o Brasil tem grandes chances de se tornar um pólo de cinema. ? Claro que qualquer tipo de competição ou comparação com a indústria cinematográfica norte-americana é ilusória. Porém, na América Latina, ao lado da Argentina e do México, essa é uma possibilidade que começa a ser vislumbrada. "Sem dúvida o cinema brasileiro já está sendo visto dessa forma na América Latina e até mesmo nos Estados Unidos. O próprio Presidente Lula afirmou que, enquanto o mercado brasileiro cresceu 11% nó último ano, o cinema nacional subiu 180%, isso é muito importante", destaca José Gozze.
Nesse contexto, a receptividade do público quanto ao cinema nacional tem sido fundamental. "Quando você tem a receptividade do público dentro do seu país é evidente que irá repercutir em outros países, tanto da América Latina como nos Estados Unidos. Não é à toa que chegamos nessa margem de 63 dias por ano de exibição", lembra Gozze.
Para Neusa Barbosa, a possibilidade do Brasil, ao lado da Argentina e México, tornar-se um pólo de cinema na América Latina é muito forte em virtude de suas características marcantes e expressivas. "Acredito que o cinema nacional ainda sofra preconceito por causa das condições técnicas ruins da década de 70. Mas superamos esses problemas e as indicações ao Oscar em Montagem e Fotografia recebidas pelo filme 'Cidade de Deus 'estão aí para comprovar, se é que o cinema brasileiro ainda precisa dessa confirmação", diz.
Neusa acrescenta ainda, que o Brasil tem um potencial de crescimento muito grande para tornar-se sede para que filmes do exterior sejam produzidos aqui. "O estúdio da Vera Cruz, no ABC paulista, será reativado e usado para a produção americana "Genesis Code", que será filmada a partir de Abril deste ano. Isso é muito positivo para a formação de novos técnicos, além disso, acredito que temos potencial para fazermos co-produções, como são feitas na Espanha e na Europa em geral", declara.
Consolidação
Na visão dos especialistas, todo esse avanço do cinema nacional tende a continuar. Entretanto, eles insistem que a criação de políticas governamentais em apoio à cinematografia brasileira é fundamental para que essa retomada não sofra um declínio como já aconteceu anteriormente. ““? importante conseguir consolidar essas posições que o cinema conquistou com maior profissionalismo, além de criar outros mecanismos para a produção, já que as leis de incentivo começam a dar sinais de esgotamento", ressalta Neusa.
Ela diz ainda que é preciso procurar formas de rever essas leis para que sejam melhoradas e incentivem os produtores independentes a criar uma estrutura cinematográfica sólida, buscando novos patrocínios na iniciativa privada. "A lei de incentivo tem que financiar o produtor e diretor novato. Com o passar do tempo, o cinema nacional precisa criar mecanismos de captação de recursos fora do governo para se auto-sustentar", conclui.
Para José Gozze, o cinema brasileiro ainda não pode ser considerado uma indústria, mas o Brasil é um país que está produzindo muito e levando sua cultura e seu povo para as salas de cinema, o que já é visto com grande interesse, inclusive fora do país. "Ao mesmo tempo que temos `Cidade de Deusï concorrendo ao Oscar, temos `Do outro lado da Rua, com Fernanda Montenegro, em Berlim. Estamos indo com muita facilidade para o exterior. Se não tivéssemos qualidade, não teríamos esse reconhecimento dentro e fora do país", finaliza Gozze.

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